Do Warehouse à EDM

House music

Em 1977, o Warehouse abriu as portas no número 206 da South Jefferson Street, em Chicago. Robert Williams comandava o clube; Frankie Knuckles, a cabine. Diante de uma pista formada principalmente por pessoas negras, latinas e gays, Knuckles estendia faixas de disco, cruzava soul, gospel e eletrônica europeia e ajustava cada mistura pela reação de quem dançava. Ainda não se chamava house. O nome, os discos e a indústria viriam depois, mas ali se firmou uma maneira de fazer música que acabaria no centro da EDM.

  • Chicago
  • Warehouse
  • 1977
  • Vinil e CD

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Antes do Warehouse, Chicago já tinha uma pista

Quando o Warehouse abriu, Chicago já tinha uma rede de festas criada por jovens que precisavam inventar os próprios lugares para dançar. Em 1974, depois de sofrerem discriminação na porta do Dugan's Bistro, Donald Crossley e os amigos começaram a organizar suas próprias noites.[1]

Crossley conhecia o Loft, de David Mancuso, em Nova York. De volta a Chicago, festas como as do US Studio passaram a reunir sobretudo jovens negros, latinos e gays. Parte desse público chegaria ao Warehouse, levando consigo discos, hábitos e uma ideia de comunidade construída na pista.[1]

Por isso, a história do house não começa de repente com uma inauguração. O Warehouse concentrou relações que já atravessavam festas privadas, clubes gays, programas de rádio e viagens entre Chicago e Nova York.

No Warehouse, a pista ensinava o DJ

Frankie Knuckles não recebeu um gênero pronto quando assumiu a cabine do Warehouse. Ele trabalhava com os discos disponíveis, prolongava introduções, combinava versões e mudava o repertório conforme a resposta do salão. O nome house acabou ligado ao clube, embora a origem exata da expressão continue em disputa.[1][2]

Quando Knuckles saiu, abriu o Power Plant. Robert Williams levou o Music Box para outro endereço e entregou a cabine a Ron Hardy, cuja seleção era mais rápida, crua e imprevisível. A diferença entre os dois clubes alargou o som: havia espaço tanto para o controle minucioso de Knuckles quanto para o risco de Hardy.[1][2]

Enquanto essas casas disputavam a noite, Lori Branch e Celeste Alexander criavam suas próprias pistas e tocavam no rádio. As duas avançaram num circuito que muitas vezes reservava aos homens os melhores horários e equipamentos. Sem esse trabalho, a cena que alimentou os primeiros discos seria bem menor.[1]

As pessoas que deram forma ao house de Chicago

Da cabine para o vinil: os primeiros discos de house

O repertório montado nessas pistas não demorou a escapar dos clubes. No início dos anos 1980, baterias eletrônicas, sintetizadores, sequenciadores e gravadores de fita permitiram que jovens produtores reconstruíssem em casa o que ouviam durante a noite.[1]

On and On, lançado por Jesse Saunders em 1984, costuma ser citado como o primeiro disco de house prensado e vendido comercialmente. A primazia é discutida, mas o single registra uma mudança clara: uma técnica criada por DJs para a pista agora podia circular em vinil.[1]

Your Love seguiu um caminho ainda mais próximo da cabine. Jamie Principle compôs e gravou a música, que circulou em fita e foi sendo modificada antes do lançamento associado a Frankie Knuckles. Composição, teste e versão final ainda aconteciam dentro da mesma noite.[1]

Em 1986, Move Your Body, de Marshall Jefferson, colocou o piano à frente da batida. Can You Feel It, de Mr. Fingers, reduziu os elementos e abriu espaço entre eles; Love Can't Turn Around, de Farley Jackmaster Funk, mostrou a força de uma grande voz. Em poucos anos, os discos deixaram claro que o house tinha um pulso comum, mas nenhuma fórmula única.[1]

Cinco discos que fixaram o som de Chicago

  • On and On

    On and On

    Jesse Saunders · 1984

    1984

    A prensagem de 1984 costuma abrir a discografia comercial do house, embora a primazia seja discutida.

  • Your Love

    Your Love

    Jamie Principle · 1986

    1986

    A gravação de Jamie Principle mudou na pista antes de chegar ao disco.

  • The House Music Anthem

    The House Music Anthem

    Marshall Jefferson · 1986

    1986

    Move Your Body pôs o piano à frente e deu ao house um de seus refrões fundadores.

  • Washing Machine / Can You Feel It

    Washing Machine / Can You Feel It

    Mr. Fingers · 1986

    1986

    A economia de elementos de Mr. Fingers apontou o caminho do deep house.

  • Acid Tracks

    Acid Tracks

    Phuture · 1987

    1987

    A experiência do Phuture com a TB-303 ganhou nome e forma neste disco.

No Music Box, a TB-303 virou acid

A TB-303 havia sido criada para simular linhas de baixo. DJ Pierre, Spanky e Herb J, do Phuture, encontraram outra coisa quando começaram a mexer nos controles enquanto o padrão da máquina rodava. O som parecia líquido, instável, quase sem relação com o instrumento que deveria imitar.[1]

O grupo levou a gravação que se tornaria Acid Tracks a Ron Hardy. Antes de existir um disco, ele tocou a fita repetidas vezes no Music Box. A cada retorno, o que primeiro causava estranhamento passava a ser reconhecido pela pista.[1][2]

Em 1988, o acid já atravessava o Reino Unido. Clubes, galpões e festas ampliaram a experiência de Chicago até ela se tornar um dos motores da cultura rave britânica.[1]

Fitas, rádio e selos levaram o house para fora de Chicago

Acid Tracks percorreu um caminho que já estava aberto. Fitas de DJs, lojas de discos e o programa Hot Mix 5, da WBMX, faziam o som circular além de cada clube. Selos como Trax e DJ International transformaram essa procura em prensagens que chegavam a outras cidades e, logo depois, a outros países.[1]

A velocidade cobrou seu preço. Contratos ruins, créditos confusos e royalties nunca pagos acompanharam parte dessa expansão. O house conquistava público enquanto muitos de seus criadores perdiam o controle sobre o próprio trabalho.[1]

Primeiro, o single dominou. No fim dos anos 1980, Another Side, do Fingers Inc., e Foundation, do Ten City, provaram que o house também podia sustentar álbuns inteiros, com canções românticas, arranjos demorados e vozes ligadas ao gospel.

Na década seguinte, produtores de outras cidades puxaram o gênero em direções diferentes. Nuyorican Soul juntou house, jazz, salsa e a experiência porto-riquenha de Nova York. Homework levou a produção francesa ao público global e citou produtores negros de house e techno em Teachers. Em Detroit, Silentintroduction, de Moodymann, fez de samples e memória negra parte da composição; em Londres, Remedy, do Basement Jaxx, absorveu a mistura dos clubes locais.[1][2][3]

O house em Chicago, Nova York, Detroit, Paris e Londres

  • Ten CityChicago

    Ten City

    Byron Stingily e Marshall Jefferson levaram romance, soul e gospel ao formato de álbum.

  • Nuyorican SoulNova York

    Nuyorican Soul

    O projeto dos Masters at Work aproximou a pista do jazz e das raízes porto-riquenhas de Nova York.

  • MoodymannDetroit

    Moodymann

    Samples, silêncios e fragmentos da memória negra organizam o house de Detroit.

  • Daft PunkParis

    Daft Punk

    Homework deu alcance mundial à produção francesa sem esconder seus professores de Chicago e Detroit.

Álbuns que ampliaram o house além do single

  • Another Side

    Another Side

    Fingers Inc. · 1988

    1988

    Fingers Inc. estendeu o deep house em canções e atmosferas que pediam a duração de um álbum.

  • Foundation

    Foundation

    Ten City · 1989

    1989

    Ten City aproximou o house de Chicago da canção romântica, do soul e do gospel.

  • Nuyorican Soul

    Nuyorican Soul

    Nuyorican Soul · 1997

    1997

    House, jazz e salsa se encontram na memória porto-riquenha de Nova York.

  • Homework

    Homework

    Daft Punk · 1997

    1997

    A estreia do Daft Punk levou a aspereza das máquinas francesas ao público mundial.

  • Silentintroduction

    Silentintroduction

    Moodymann · 1997

    1997

    Moodymann fez de samples, silêncios e memória negra a arquitetura do disco.

  • Remedy

    Remedy

    Basement Jaxx · 1999

    1999

    A estreia do Basement Jaxx guarda a mistura que atravessava os clubes de Londres.

Os discos de hoje reabrem a história do house

Com a expansão, parte da indústria passou a vender house como se o gênero tivesse nascido pronto e sem comunidade. Midtown 120 Blues, lançado por DJ Sprinkles em 2009, responde a esse apagamento. O álbum recoloca a experiência queer e trans no centro e pergunta o que se perde quando o som é separado das pessoas que o criaram.[1]

Outros discos retomam o passado pelo próprio modo de gravar. Significant Changes, de Jayda G, aproxima house, disco e composição sem transformar a tradição em peça de museu. Em Spaces And Places, Kerri Chandler montou estúdios temporários dentro de clubes de vários países para registrar a acústica e a memória de cada pista.[1]

Honey Dijon leva a Chicago contemporânea para Black Girl Magic e insiste na origem negra, queer e trans do gênero. Em RENAISSANCE, Beyoncé faz essa herança atravessar o pop mundial, com a participação de Honey Dijon e referências acumuladas por décadas de cultura de clube.[1]

I Hear You marca outra etapa desse percurso. Peggy Gou, artista sul-coreana radicada na Europa, trabalha com um som nascido em Chicago e transformado por incontáveis cidades. Entre esse álbum e On and On há quarenta anos de distância, mas a pista ainda participa da música.

O house de agora, do clube ao pop

  • BeyoncéPop

    Beyoncé

    RENAISSANCE fez décadas de cultura de pista atravessarem o pop mundial.

  • Peggy GouMundo

    Peggy Gou

    Leva a batida de Chicago por uma trajetória entre a Coreia do Sul e a Europa.

Do Midtown 120 Blues a I Hear You

  • Midtown 120 Blues

    Midtown 120 Blues

    DJ Sprinkles · 2009

    2009

    O deep house vira uma crítica ao apagamento da memória queer e trans.

  • Significant Changes

    Significant Changes

    Jayda G · 2019

    2019

    House e disco reaparecem em canções atuais, sem a obrigação de soar retrô.

  • Spaces And Places

    Spaces And Places

    Kerri Chandler · 2022

    2022

    Cada faixa nasce dentro de um clube e guarda algo da sala onde foi gravada.

  • RENAISSANCE

    RENAISSANCE

    Beyoncé · 2022

    2022

    A história negra e queer do house ganha a escala de um grande álbum pop.

  • I Hear You

    I Hear You

    Peggy Gou · 2024

    2024

    Uma nova geração leva a linguagem de Chicago por uma rota mundial.

Por que o house está na origem da EDM

EDM é um termo posterior e muito mais amplo do que house. Ele reúne gêneros, festivais e mercados com histórias diferentes. Disco, electro e techno, por exemplo, têm trajetórias próprias e não cabem como simples capítulos do house.[1]

Na Chicago dos anos 1980, porém, já aparece um modo de trabalho que se tornaria central para a música eletrônica de pista: o DJ também produz, o público participa do desenvolvimento da faixa, equipamentos acessíveis encurtam a distância até o estúdio e selos independentes prensam o resultado.

Dizer que o house está na origem da EDM não significa atribuir toda a música eletrônica ao Warehouse. Significa reconhecer que aquela cena mostrou como uma faixa podia nascer no clube, ser corrigida pela pista, virar disco e viajar pelo mundo. Mesmo quando o som mudou, esse percurso continuou.[1]

Pesquisa e fontes

  1. 1
    The Foundation for the House Music Movement — WTTW Chicago,
  2. 2
    The Warehouse — Preservation Chicago,
  3. 3
    Do You Remember House? Chicago's Queer of Color Undergrounds — Smithsonian Institution,
  4. 4
    Meet the Heroines of House Music — WTTW Chicago,
  5. 5
    Your Love: Frankie Knuckles and Jamie Principle — Library of Congress,
  6. 6
  7. 7
  8. 8
    Ron Hardy at the Music Box — Red Bull Music Academy Daily,
  9. 9
    Urban Acid — London Museum,
  10. 10
  11. 11
    Daft Punk: Homework — Pitchfork,
  12. 12
  13. 13
    DJ Sprinkles: Midtown 120 Blues — Crack Magazine,
  14. 14
  15. 15
    Honey Dijon on house music's Black queer legacy — Southbank Centre,
  16. 16
    Celebrating House Music — Google Doodles,

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