Erik Satie
Imaginou uma música que pudesse conviver com a atividade cotidiana de uma sala.
Guia de estilo
Ambient pode soar discreto, mas isso não significa que seja música sem intenção. Muitos desses discos foram pensados para interferir no espaço: um aeroporto, uma galeria, uma sala de estar, um quarto depois da festa. A história do gênero passa por essas situações de escuta e pelas diferentes maneiras como seus artistas trataram o tempo.
62.832 artistas encontrados
Michael Gordon Oldfield
Jean-Michel André Jarre
Peter Brian Gabriel
Ευάγγελος Οδυσσέας Παπαθανασίου = Evángelos Odysséas Papathanassíou
Richard Melville Hall
Robert Nesta Marley
Jerrald King Goldsmith
Richard Christopher Wakeman
春日井直樹
Brian Peter George St John le Baptiste de la Salle Eno
Mark Freuder Knopfler
Masanori Takahashi (高橋正則)
Eithne Pádraigín Ní Bhraonáin (Enya Patricia Brennan)
Giovanni Giorgio Moroder
Sarah Brightman
Ryland Peter Cooder
Hans Florian Zimmer
Erik Satie imaginou peças que pudessem conviver com a atividade de um lugar, em vez de silenciar tudo ao redor. Décadas depois, John Cage aceitou o acaso e os ruídos do espaço dentro da obra. La Monte Young e Terry Riley estenderam drones e repetições até que a passagem do tempo ficasse mais evidente do que qualquer melodia.[1]
Eles não procuravam o mesmo som. O ponto de encontro estava na escuta: a música podia dividir a atenção com a sala, misturar-se a ela ou mudar a maneira como o tempo era percebido.[1]
Na década de 1970, sintetizadores, fitas e sequenciadores deram outra escala a essa busca. Em Berlim Ocidental, Tangerine Dream e Klaus Schulze criaram peças extensas nas quais o pulso eletrônico avançava devagar, sem depender da forma tradicional da canção. Phaedra, gravado pelo Tangerine Dream em 1973 e lançado em 1974, concentrou essa mudança em um único disco.[1]
Em 1978, Ambient 1: Music for Airports ligou uma palavra a uma situação concreta. A música deveria coexistir com anúncios, espera e movimento sem disputar toda a atenção. O aeroporto era o lugar onde a ideia precisava funcionar. O disco não inventou sozinho as práticas que hoje recebem o nome ambient. Ele lhes deu uma proposta clara e um vocabulário público. Harold Budd, Laraaji e Jon Hassell seguiram por outras direções, com piano, cítara e trompete processado.
Paris e Nova York
Satie, Cage, La Monte Young e Terry Riley fizeram a composição conviver com a sala, o acaso, o ruído e durações cada vez mais longas.[1]
Berlim Ocidental, anos 1970
Tangerine Dream e Klaus Schulze usaram sintetizadores e sequenciadores para construir peças extensas, movidas por pulsos que mudavam devagar.[1]
Reino Unido, 1978
Music for Airports transforma uma situação concreta de espera e circulação em uma proposta musical capaz de admitir diferentes níveis de atenção.[1]
Tóquio, anos 1980
Yoshimura, Ashikawa, Ojima e Takada criam música ligada a museus, lojas, residências e outros espaços da vida cotidiana.[1]
Reino Unido e Noruega, anos 1990
The KLF, The Orb, Aphex Twin, Global Communication e Biosphere levam essa escuta para salas de descanso, quartos e fones.[1]
Estados Unidos, anos 1990 e 2000
Quando os discos de Brian Eno começaram a circular em Tóquio no fim dos anos 1970, encontraram artistas que já aproximavam música, design e espaço. Hiroshi Yoshimura, Satoshi Ashikawa e Yoshio Ojima compuseram para museus, galerias, lojas, residências e produtos. Nesses trabalhos, o lugar de escuta não era um detalhe. Fazia parte da composição.[1]
Boa parte dessa produção surgiu durante os anos 1980, quando empresas japonesas investiram em arquitetura, design e experiências de consumo. Algumas gravações tiveram tiragens pequenas ou funções muito específicas. Décadas depois, compilações e reedições em vinil levaram esse repertório a um público maior.[1]
Green, de Hiroshi Yoshimura, ajuda a ouvir essa diferença. Os sintetizadores deixam espaço para silêncio, repetição e pequenas mudanças de timbre. O disco pede atenção, mas não a exige o tempo todo.[1]
Na passagem dos anos 1980 para os 1990, a cultura rave deu ao ambient uma função social bem definida. Em salas de descanso e festas prolongadas, a música reduzia a intensidade sem abandonar o mundo da eletrônica. Chill Out, do The KLF, transformou o álbum em um percurso contínuo, mais próximo de uma viagem imaginada do que de uma sequência de faixas.[1]
The Orb manteve a ligação com o dub e com o estúdio da música de dança. Aphex Twin levou texturas mais estranhas e pessoais para discos ouvidos em quartos e fones. Na Noruega, Biosphere deu à eletrônica um sentido de distância, frio e isolamento.[1]
Nos discos dos anos 1990 cabiam baixos profundos, ruídos, fragmentos de voz e longos trechos sem batida. O espaço continuava no centro da experiência. Às vezes era a sala ao lado da pista; em outras, existia apenas dentro dos fones.
Os discos reunidos décadas depois por Outro Tempo não saíram de uma única cena chamada ambient. Entre o fim dos anos 1970 e o começo dos 1990, músicos brasileiros usaram sintetizadores, fitas, instrumentos acústicos e sons do ambiente em trabalhos ligados à MPB, ao minimalismo e à música experimental.[1]
Priscilla Ermel, Nando Carneiro, Marco Bosco e Fernando Falcão chegaram a esse território por caminhos diferentes. A compilação aproximou gravações que antes estavam espalhadas por catálogos, cidades e contextos distintos. Ambient é uma lente útil para ouvi-las hoje, mas não o nome de uma escola brasileira que reuniu esses artistas.[1]
As reedições também mudaram a circulação dessas obras. Gravações antes difíceis de encontrar passaram a dividir prateleiras com discos japoneses, europeus e norte-americanos. A aproximação faz sentido pela escuta, sem apagar as diferenças entre suas histórias.
Em The Disintegration Loops, William Basinski reproduziu antigos loops de fita enquanto eles se desfaziam. A degradação ficou registrada. A cada volta, a música perdia um pouco de sua informação.[1]
Em obras de Steve Roach e Stars of the Lid, a mudança pode ser menos visível. Drones e sobreposições permanecem por longos períodos, e pequenas diferenças aparecem apenas para quem continua ouvindo.[1]
A repetição não conserva o som nesses trabalhos. Ela permite ouvir o que muda. O ambiente inclui a sala, mas também a memória, a espera e o desgaste do próprio suporte.
No LP, a música precisa atravessar dois lados. A pausa entre eles força uma decisão: onde a continuidade termina e como ela recomeça.
Na fita, o loop é um objeto físico. Ele pode ser cortado, colado, repetido e gasto. Em The Disintegration Loops, esse desgaste ficou registrado junto com a música.[1]
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