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Ambient: música para mudar um lugar

Ambient pode soar discreto, mas isso não significa que seja música sem intenção. Muitos desses discos foram pensados para interferir no espaço: um aeroporto, uma galeria, uma sala de estar, um quarto depois da festa. A história do gênero passa por essas situações de escuta e pelas diferentes maneiras como seus artistas trataram o tempo.

Ambient

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A sala também fazia parte da música

Erik Satie imaginou peças que pudessem conviver com a atividade de um lugar, em vez de silenciar tudo ao redor. Décadas depois, John Cage aceitou o acaso e os ruídos do espaço dentro da obra. La Monte Young e Terry Riley estenderam drones e repetições até que a passagem do tempo ficasse mais evidente do que qualquer melodia.[1]

Eles não procuravam o mesmo som. O ponto de encontro estava na escuta: a música podia dividir a atenção com a sala, misturar-se a ela ou mudar a maneira como o tempo era percebido.[1]

Na década de 1970, sintetizadores, fitas e sequenciadores deram outra escala a essa busca. Em Berlim Ocidental, Tangerine Dream e Klaus Schulze criaram peças extensas nas quais o pulso eletrônico avançava devagar, sem depender da forma tradicional da canção. Phaedra, gravado pelo Tangerine Dream em 1973 e lançado em 1974, concentrou essa mudança em um único disco.[1]

Satie, Cage e os eletrônicos de Berlim

  • Erik Satie

    Erik Satie

    Imaginou uma música que pudesse conviver com a atividade cotidiana de uma sala.

  • John Cage

    John Cage

    Aceitou o acaso e os sons do ambiente como parte da própria composição.

  • La Monte Young

    La Monte Young

    Estendeu drones por longos períodos e fez da duração uma parte central da escuta.

  • Terry Riley

    Terry Riley

    Usou repetição e pulsos contínuos para revelar mudanças que aparecem aos poucos.

  • Tangerine Dream

    Tangerine Dream

    Fez do sequenciador e do estúdio a base de longas formas eletrônicas em Berlim.

  • Klaus Schulze

    Klaus Schulze

    Construiu peças extensas com sintetizadores, camadas lentas e pulsos graduais.

Brian Eno

Eno tratou o aeroporto como um problema musical

Em 1978, Ambient 1: Music for Airports ligou uma palavra a uma situação concreta. A música deveria coexistir com anúncios, espera e movimento sem disputar toda a atenção. O aeroporto era o lugar onde a ideia precisava funcionar. O disco não inventou sozinho as práticas que hoje recebem o nome ambient. Ele lhes deu uma proposta clara e um vocabulário público. Harold Budd, Laraaji e Jon Hassell seguiram por outras direções, com piano, cítara e trompete processado.

Ano
1978, lançamento de Ambient 1: Music for Airports
Lugar
O aeroporto aparece no título e orienta a proposta do disco
Escuta
A música pode receber atenção próxima ou permanecer ao fundo
Ver discografia de Brian Eno

Piano, cítara e trompete depois de Music for Airports

  • Harold Budd

    Harold Budd

    Seu piano deixa que silêncio, ataque e ressonância tenham o mesmo peso.

  • Laraaji

    Laraaji

    Usou cítara amplificada para criar música luminosa, repetitiva e aberta ao ambiente.

  • Jon Hassell

    Jon Hassell

    Transformou o trompete com processamento eletrônico e uma ideia própria de espaço sonoro.

Onde essa música aconteceu

  1. Paris e Nova York

    A música deixa de pedir silêncio

    Satie, Cage, La Monte Young e Terry Riley fizeram a composição conviver com a sala, o acaso, o ruído e durações cada vez mais longas.[1]

  2. Berlim Ocidental, anos 1970

    O estúdio cria um espaço próprio

    Tangerine Dream e Klaus Schulze usaram sintetizadores e sequenciadores para construir peças extensas, movidas por pulsos que mudavam devagar.[1]

  3. Reino Unido, 1978

    Eno escreve para o aeroporto

    Music for Airports transforma uma situação concreta de espera e circulação em uma proposta musical capaz de admitir diferentes níveis de atenção.[1]

  4. Tóquio, anos 1980

    A arquitetura entra no disco

    Yoshimura, Ashikawa, Ojima e Takada criam música ligada a museus, lojas, residências e outros espaços da vida cotidiana.[1]

  5. Reino Unido e Noruega, anos 1990

    A pista abre uma sala ao lado

    The KLF, The Orb, Aphex Twin, Global Communication e Biosphere levam essa escuta para salas de descanso, quartos e fones.[1]

  6. Estados Unidos, anos 1990 e 2000

    A passagem do tempo fica audível

    Steve Roach, Stars of the Lid e William Basinski trabalham com drones, longas durações e fitas que se alteram enquanto tocam.[1][2]

Em Tóquio, o som entrou na arquitetura

Quando os discos de Brian Eno começaram a circular em Tóquio no fim dos anos 1970, encontraram artistas que já aproximavam música, design e espaço. Hiroshi Yoshimura, Satoshi Ashikawa e Yoshio Ojima compuseram para museus, galerias, lojas, residências e produtos. Nesses trabalhos, o lugar de escuta não era um detalhe. Fazia parte da composição.[1]

Boa parte dessa produção surgiu durante os anos 1980, quando empresas japonesas investiram em arquitetura, design e experiências de consumo. Algumas gravações tiveram tiragens pequenas ou funções muito específicas. Décadas depois, compilações e reedições em vinil levaram esse repertório a um público maior.[1]

Green, de Hiroshi Yoshimura, ajuda a ouvir essa diferença. Os sintetizadores deixam espaço para silêncio, repetição e pequenas mudanças de timbre. O disco pede atenção, mas não a exige o tempo todo.[1]

Yoshimura, Ashikawa, Ojima e Takada

  • 吉村弘

    吉村弘

    Compôs para museus, galerias e espaços cotidianos, sempre atento ao lugar de escuta.

  • 芦川聡

    芦川聡

    Tratou a música ambiental como parte do projeto de um espaço, não como simples decoração.

  • 尾島由郎

    尾島由郎

    Criou trabalhos ligados a galerias, lojas e projetos de design no Japão dos anos 1980.

  • 高田みどり

    高田みどり

    Fez da percussão, da repetição e do silêncio uma experiência física de escuta.

A festa acabou, mas ninguém foi embora

Na passagem dos anos 1980 para os 1990, a cultura rave deu ao ambient uma função social bem definida. Em salas de descanso e festas prolongadas, a música reduzia a intensidade sem abandonar o mundo da eletrônica. Chill Out, do The KLF, transformou o álbum em um percurso contínuo, mais próximo de uma viagem imaginada do que de uma sequência de faixas.[1]

The Orb manteve a ligação com o dub e com o estúdio da música de dança. Aphex Twin levou texturas mais estranhas e pessoais para discos ouvidos em quartos e fones. Na Noruega, Biosphere deu à eletrônica um sentido de distância, frio e isolamento.[1]

Nos discos dos anos 1990 cabiam baixos profundos, ruídos, fragmentos de voz e longos trechos sem batida. O espaço continuava no centro da experiência. Às vezes era a sala ao lado da pista; em outras, existia apenas dentro dos fones.

The KLF, The Orb e a escuta de madrugada

  • The KLF

    The KLF

    Em Chill Out, transformou o álbum em uma viagem contínua feita para o fim da noite.

  • The Orb

    The Orb

    Manteve o peso do dub e a lógica do estúdio dentro de peças longas e expansivas.

  • Aphex Twin

    Aphex Twin

    Levou o ambient para um terreno mais íntimo, estranho e pouco interessado em pureza.

  • Global Communication

    Global Communication

    Construiu 76:14 como uma sequência contínua de ambientes eletrônicos em transformação.

  • Biosphere

    Biosphere

    Deu à eletrônica uma sensação de distância, frio e paisagem quase desabitada.

Esses discos brasileiros não se chamavam ambient

Os discos reunidos décadas depois por Outro Tempo não saíram de uma única cena chamada ambient. Entre o fim dos anos 1970 e o começo dos 1990, músicos brasileiros usaram sintetizadores, fitas, instrumentos acústicos e sons do ambiente em trabalhos ligados à MPB, ao minimalismo e à música experimental.[1]

Priscilla Ermel, Nando Carneiro, Marco Bosco e Fernando Falcão chegaram a esse território por caminhos diferentes. A compilação aproximou gravações que antes estavam espalhadas por catálogos, cidades e contextos distintos. Ambient é uma lente útil para ouvi-las hoje, mas não o nome de uma escola brasileira que reuniu esses artistas.[1]

As reedições também mudaram a circulação dessas obras. Gravações antes difíceis de encontrar passaram a dividir prateleiras com discos japoneses, europeus e norte-americanos. A aproximação faz sentido pela escuta, sem apagar as diferenças entre suas histórias.

Priscilla Ermel, Nando Carneiro, Marco Bosco e Fernando Falcão

  • Priscilla Ermel

    Priscilla Ermel

    Aproximou instrumentos acústicos, eletrônica e sons do ambiente em peças meditativas.

  • Nando Carneiro

    Nando Carneiro

    Misturou composição instrumental, canção e timbres eletrônicos em discos de circulação discreta.

  • Marco Bosco

    Marco Bosco

    Usou percussão e eletrônica para criar peças rítmicas que escapam de um gênero único.

  • Fernando Falcão

    Fernando Falcão

    Trabalhou com instrumentos acústicos, repetição e texturas próximas da escuta ambiental.

A fita se desfaz enquanto Basinski grava

Em The Disintegration Loops, William Basinski reproduziu antigos loops de fita enquanto eles se desfaziam. A degradação ficou registrada. A cada volta, a música perdia um pouco de sua informação.[1]

Em obras de Steve Roach e Stars of the Lid, a mudança pode ser menos visível. Drones e sobreposições permanecem por longos períodos, e pequenas diferenças aparecem apenas para quem continua ouvindo.[1]

A repetição não conserva o som nesses trabalhos. Ela permite ouvir o que muda. O ambiente inclui a sala, mas também a memória, a espera e o desgaste do próprio suporte.

Stars of the Lid, Steve Roach e William Basinski

  • Steve Roach

    Steve Roach

    Constrói espaços lentos com drones que mudam quase abaixo do limite da percepção.

  • Stars of the Lid

    Stars of the Lid

    Estende guitarras, cordas e drones até que a duração altere a sensação de escala.

  • William Basinski

    William Basinski

    Gravou antigos loops de fita enquanto o próprio material se desfazia a cada passagem.

O suporte também compõe

No LP, a música precisa atravessar dois lados. A pausa entre eles força uma decisão: onde a continuidade termina e como ela recomeça.

Na fita, o loop é um objeto físico. Ele pode ser cortado, colado, repetido e gasto. Em The Disintegration Loops, esse desgaste ficou registrado junto com a música.[1]

O CD retirou a pausa entre os lados e abriu espaço para peças contínuas mais longas. Thursday Afternoon, de Brian Eno, dura 61 minutos. Décadas depois, reedições como Selected Ambient Works Volume II distribuíram o mesmo repertório em caixas de quatro LPs e três CDs.[1][2]

Oito discos e os lugares que eles imaginam

  • Phaedra

    Phaedra

    Tangerine Dream · 1974

    Berlim, 1974

    O sequenciador transforma repetição em movimento.

  • Ambient 1: Music for Airports

    Ambient 1: Music for Airports

    Brian Eno · 1978

    Reino Unido, 1978

    O disco que associou o termo ambient a um lugar de escuta.

  • Green

    Green

    吉村弘 · 1986

    Japão, 1986

    Sintetizadores, silêncio e sons naturais dividem o mesmo espaço.

  • The Pearl

    The Pearl

    Harold Budd, Brian Eno, Daniel Lanois · 1984

    1984

    O piano de Harold Budd flutua dentro da produção de Brian Eno.

  • Chill Out

    Chill Out

    The KLF · 1990

    Reino Unido, 1990

    Uma viagem pós-rave construída como percurso contínuo.

  • Selected Ambient Works, Volume II

    Selected Ambient Works, Volume II

    Aphex Twin · 1994

    Reino Unido, 1994

    Texturas lentas e sem títulos levaram o gênero a outro público.

  • Substrata

    Substrata

    Biosphere · 1997

    Noruega, 1997

    Frio, campo e eletrônica entram no mesmo ambiente.

  • The Disintegration Loops

    The Disintegration Loops

    William Basinski · 2013

    Estados Unidos, 2002

    A deterioração da fita passa a fazer parte da composição.

Fontes e leituras

  1. 1
  2. 2
    Brian Eno SFMOMA,
  3. 3
  4. 4
    Green Light in the Attic Records,
  5. 5
    The Sound of Embodied Security University of Minnesota Press,
  6. 6
    Phaedra Tangerine Dream,
  7. 7
  8. 8
  9. 9
    Thursday Afternoon Art Metropole,
  10. 10
    The Disintegration Loops Temporary Residence Ltd.,
  11. 11
    About Stars of the Lid Stars of the Lid Forever,

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