Rear cover:
A menos que se lhe aceitem os arranjos mais ou menos livres, a guitarra portuguesa é um intérprete muito pouco fiel de toda a música que não tenha saído das suas cordas, de preferência pelas mãos do próprio executante. A razão está em que, para revelar convenientemente as qualidades que a distinguem dos outros instrumentos congéneres, é necessário empregar uma técnica híbrida da mão direita, um misto de plectrum e primitiva dedilhação do alaúde.
E a verdade é que, até hoje, apesar de várias e persistentes experiências, não foi possível substituí-la por outra mais racional. António da Silva Leite, compositor radicado na cidade do Porto, publicou, nos fins do século XVIII um método e seis sonatas para guitarra portuguesa, com acompanhamento, ad libitum, de um violino e duas trompas.
O termo ad libitum refere-se, aqui, a uma elástica liberdade de interpretação das partes escritas para os instrumentos acompanhadores, em função, evidentemente, da execução, de certo modo irregular, imposta ao solista pelas particularidades da sua técnica. No entanto pode deduzir-se que António da Silva Leite, ele próprio notável executante da guitarra portuguesa, se soube servir, pela primeira vez, de toda uma expressividade muito especial para mascarar aquelas insuficiências. E se, como era de esperar não logrou conquistar para a música erudita um novo instrumento, os seus processos fizeram escola e deixaram atrás de si uma tradição de expressivos guitarristas, com o ouvido bem afeito aos rudimentos da harmonia clássica, e um certo bom gosto que sobreviveu até à primeira metade do nosso século.
Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição. A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra.
São, aliás, influências de ambos, de mistura com uma propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística,que marcam as minhas mais antigas realizações: Movimento Perpétuo, Variações em Mi Menor, Variações em ré menor e Danças Portuguesas, da face inicial do disco.
CARLOS PAREDES
(P) & (C) 1971
Edições Valentim de Carvalho, SA