R. Stevie Moore
Grava no porão dos pais em Nova Jersey desde 1968; estreou com Phonography em 1976 e lançou por conta própria centenas de álbuns.
Estilo
Chiado de fita, voz colada no microfone, bateria que soa como caixa de papelão. Lo-fi é o nome que se deu à música gravada fora do estúdio profissional, num quarto, num porão ou numa cozinha, e espalhada por fitas copiadas à mão, fanzines e selos pequenos. Da origem do termo ao Pavement e à Baixada Fluminense, veja quem gravou assim e onde achar esses discos em vinil e CD.
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Osees
Robert Steven Moore
Low fidelity, baixa fidelidade, circulava desde os anos 1950 como o avesso do hi-fi, o padrão de som que a indústria vendia junto com toca-discos e caixas acústicas. Virou nome de música em fevereiro de 1986, quando William Berger abriu, dentro do seu programa na rádio WFMU, em Nova Jersey, meia hora semanal dedicada só a gravações caseiras que os ouvintes mandavam pelo correio.[1][2]
“Gravações caseiras feitas em equipamento barato. Primitivismo técnico somado a brilhantismo.”
A expressão “primitivismo técnico” resume o que o lo-fi carregaria dali em diante. O chiado, a distorção e o volume que sobe e desce deixavam de ser defeitos a esconder e passavam a mostrar que alguém tinha feito aquilo sozinho, com o que tinha em casa. Berger deu nome a uma prática que já existia havia quase vinte anos.[1]
Em 1967, os Beach Boys lançaram Smiley Smile, gravado em boa parte no estúdio improvisado que Brian Wilson montou em casa, em Bel Air. Dois anos depois, as irmãs Wiggin, de Fremont, em New Hampshire, gravaram como The Shaggs o disco Philosophy of the World, que passou quase despercebido até ser relançado em 1980 por Terry Adams, do NRBQ.[1][2]
Também em 1969 saiu Oar, de Skip Spence, que tinha deixado o Moby Grape. Ele gravou o disco em poucos dias em Nashville, tocando todos os instrumentos, e a Columbia vendeu tão pouco que o tirou de catálogo em menos de um ano. Em Nova Jersey, R. Stevie Moore gravava no porão da casa dos pais desde 1968; a estreia oficial, Phonography, saiu em 1976, e ele seguiu lançando por conta própria centenas de álbuns. Em 1978, Jandek estreou com Ready for the House pelo selo que ele mesmo criou, a Corwood Industries.[1][2][3]
Na Inglaterra, o punk abriu a mesma porta para quem nunca tinha pisado num estúdio. Os Television Personalities gravaram o EP Where's Bill Grundy Now? em 1978, em quatro horas, gastando 22 libras. O que faltava era um aparelho que colocasse o estúdio inteiro em cima de uma mesa.[1]
Esse aparelho foi apresentado em setembro de 1979, em Nova York: o Portastudio 144, da Tascam, primeiro gravador de quatro canais a usar fita cassete comum. Com ele dava para gravar voz, violão, baixo e bateria em pistas separadas e mixar tudo na mesa da cozinha. A fita, que já servia para copiar discos de amigos, virou também o formato de lançamento.[1]
A distribuição veio pelo correio. Entre 1979 e 1984, a revista OP, editada em Olympia, no estado de Washington, publicava o endereço de quem gravava fitas em casa, e leitores de vários países passaram a trocar cópias entre si. Na mesma cidade, Calvin Johnson fundou em 1982 a K Records, cujo primeiro lançamento foi uma fita, e formou no mesmo ano o Beat Happening, trio sem baixo, de bateria mínima e voz sem retoque.[1][2][3]
Em Austin, no Texas, Daniel Johnston gravava suas canções em fita cassete e distribuía cópias pela cidade. A capa de Hi, How Are You, de 1983, trazia um sapo desenhado por ele, e foi essa estampa que Kurt Cobain usou numa camiseta no MTV Video Music Awards de 1992, levando as fitas de Johnston a quem nunca tinha ouvido falar delas. Na Nova Zelândia, Chris Knox e Alec Bathgate formaram em 1981 o Tall Dwarfs e gravavam em quatro canais os discos que o selo Flying Nun lançava.[1][2]
No fim dos anos 1980, essa rede de fitas começou a abastecer selos com distribuição de verdade. Bill Callahan lançava desde 1988 suas fitas como Smog pelo próprio selo, Disaster; o disco Sewn to the Sky saiu em 1990 e depois ganhou edições em CD e LP pela Drag City, de Chicago. Lou Barlow fazia o mesmo com gravações caseiras, e o compacto Gimme Indie Rock!, do Sebadoh, lançado em 1991, juntava uma faixa de estúdio a um lado B gravado em quatro canais. No mesmo ano, Liz Phair gravou sozinha três fitas como Girly-Sound, que circularam copiadas por décadas até a Matador lançá-las oficialmente em 2018.[1][2][3]
John Darnielle, dos Mountain Goats, reduziu o método ao mínimo: gravava direto num rádio-gravador Panasonic, sem mesa nem pistas separadas, e lançava as fitas pela Shrimper, selo de cassetes de Upland, na Califórnia.[1]
Robert Pollard montou Bee Thousand a partir de gravações feitas em gravadores de quatro canais baratos, em casas e garagens de Dayton. O disco saiu em junho de 1994 pelo pequeno selo Scat e abriu caminho para a banda chegar à Matador. Pollard nunca gostou do rótulo lo-fi: para ele, os gravadores de quatro canais simplesmente ficaram comuns e alguém precisou inventar uma categoria. Para quem coleciona, Bee Thousand ganhou em 2004 uma versão Director's Cut em três LPs e, em 2024, uma edição de 30 anos em vinil.
Quem levou o som caseiro às paradas foi Beck. Loser foi gravada em poucas horas na cozinha do produtor Carl Stephenson e saiu primeiro em 1993 por um selo pequeno de Los Angeles, o Bong Load; relançada pela DGC no disco Mellow Gold, em 1994, entrou no top 10 da Billboard. Em agosto daquele ano, o New York Times publicou uma reportagem sobre roqueiros lo-fi que preferiam o som cru ao polido, com Beck e Guided by Voices no centro, e o termo de Berger chegou à grande imprensa.[1][2]
A mesma década deixou discos mais silenciosos. Elliott Smith gravou Roman Candle em quatro canais num porão de Portland, sem pensar em lançá-lo, e o disco saiu em 1994 pelo selo Cavity Search. Em 1998, o Neutral Milk Hotel lançou In the Aeroplane Over the Sea pela Merge, que o reeditou em vinil de 180 gramas em 2009.[1][2]
Slanted and Enchanted saiu pela Matador, gravado com pouco dinheiro no estúdio caseiro do baterista Gary Young, em Stockton.
Banda de Lou Barlow. O compacto Gimme Indie Rock! juntou uma faixa de estúdio a um lado B gravado em quatro canais.
Projeto de Bill Callahan, que começou com fitas pelo próprio selo, Disaster; Sewn to the Sky (1990) foi reeditado pela Drag City.
Gravou sozinha três fitas como Girly-Sound, copiadas por fãs durante décadas até a Matador lançá-las oficialmente em 2018.
John Darnielle gravava direto num rádio-gravador Panasonic e lançava as fitas pela Shrimper, selo de cassetes da Califórnia.
Loser foi gravada na cozinha de Carl Stephenson, saiu pelo pequeno Bong Load e chegou ao top 10 da Billboard com Mellow Gold.
Gravou Roman Candle em quatro canais num porão de Portland, sem pensar em lançar; o disco saiu pelo selo Cavity Search.
In the Aeroplane Over the Sea saiu pela Merge, que reeditou o disco em vinil de 180 gramas em 2009.
Muitos desses discos nasceram em fita e hoje circulam em reedições de vinil e CD. Compare as ofertas das lojas acompanhadas pelo Garimpa, confira o histórico de preço de cada edição, crie alertas de queda e acompanhe quando um título esgotado volta a aparecer.
Comparar ofertas de discos lo-fiNa virada do século, o cassete de quatro pistas deu lugar a gravadores digitais e ao CD-R feito no computador. Ariel Pink gravou The Doldrums entre 1999 e 2000 num Yamaha MT8 e distribuiu o disco em CD-R caseiro, até que o Paw Tracks, selo do Animal Collective, o lançou oficialmente em 2004. O som abafado desses discos inspirou, em 2009, dois rótulos criados pela imprensa quase ao mesmo tempo: hypnagogic pop, cunhado por David Keenan na revista The Wire, e chillwave, que nasceu como piada num blog.[1][2][3]
Nos anos 2010, a distribuição passou de vez para a internet. Will Toledo publicou doze projetos do Car Seat Headrest no Bandcamp entre 2010 e 2014, assinou com a Matador em 2015 e regravou parte dessas canções no disco Teens of Style. Mac DeMarco gravou Salad Days no próprio apartamento, no Brooklyn, e o lançou pela Captured Tracks em 2014. Em 2017, Clairo publicou Pretty Girl, música feita no GarageBand com vídeo gravado na webcam do laptop.[1][2][3]
Naquele mesmo ano, um canal do YouTube começou a transmitir sem parar batidas de hip-hop instrumental com chiado de vinil, sob o nome lofi hip hop radio. É outra linhagem, que vem de produtores como Nujabes e J Dilla e usa o ruído como efeito de ambiente, não como consequência de gravar em casa.[1]
No Brasil, o caminho passou pelas mesmas peças: gravador caseiro, fita, fanzine e selo pequeno. Em 1982, a Baratos Afins, loja que Luiz Calanca mantinha desde 1978 na Galeria do Rock, em São Paulo, estreou como gravadora com Singin' Alone, de Arnaldo Baptista. No disco, o ex-Mutantes toca piano, guitarra, baixo e bateria, canta e cuida da gravação e da mixagem.[1]
Em Niterói, Rodrigo Lariú começou em 1989 o fanzine Midsummer Madness, que a partir de 1991 passou a sair acompanhado de fitas. Em 1994 o fanzine virou selo de fitas demo, e os primeiros CDs saíram em 1997.[1]
Nos anos 2000, o gravador de quatro canais continuava na ativa. Pedro Bonifrate gravou os primeiros EPs em casa, em Paraty, e com o Supercordas fez Seres Verdes ao Redor, de 2006, quase todo em casa, com um microfone de uns 90 reais, sem isolamento acústico e com sapos e grilos vazando na gravação. A pernambucana Lulina gravou oito CD-Rs caseiros entre 2001 e 2008, com capas desenhadas à mão e enviados pelo correio; o primeiro disco de estúdio, Cristalina, de 2009, regravou as melhores dessas canções.[1][2][3][4]
Em janeiro de 2004, Lê Almeida criou a Transfusão Noise Records para lançar bandas de amigos da Baixada Fluminense. A primeira sede foi o quarto apertado dele, apelidado de Interestellar Lo-Fi, com gravações no quintal nos fins de semana. O selo passou dos cem lançamentos e, em 2013, ganhou uma sala no centro do Rio, perto da Praça Tiradentes. No fim de 2016, Lê formou o Oruã, que gravou as primeiras músicas em fitas cassete velhas.[1][2]
Em 2018, Lê Almeida e João Casaes, parceiro dele na Transfusão, viraram a banda de apoio de Doug Martsch, do Built to Spill, nos shows no Brasil. No ano seguinte o Oruã excursionou pelos Estados Unidos, gravou sessão na rádio KEXP, de Seattle, e abriu shows do Built to Spill; os dois brasileiros tocaram em When the Wind Forgets Your Name, disco da banda americana lançado pela Sub Pop em 2022. Para 13 de novembro de 2026, a K Records, o selo que Calvin Johnson fundou em Olympia em 1982, anunciou Maldição (2016-2026), antologia do Oruã em LP duplo.
Na geração seguinte, o lo-fi virou textura e, às vezes, uma fase. O Terno Rei, de São Paulo, gravou os primeiros discos com essa sonoridade e, em 2019, ao lançar Violeta, disse ter cansado dela. Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo estreou em 2021 com um disco produzido por Ana Frango Elétrico que a crítica descreveu como uma mistura de lo-fi cru e indie delicado.[1][2]
O ex-Mutantes tocou, cantou, gravou e mixou sozinho Singin' Alone, primeiro disco lançado pela Baratos Afins.
Seres Verdes ao Redor foi gravado quase todo em casa, com um microfone barato e sapos e grilos vazando na gravação.
Pedro Bonifrate gravou os primeiros EPs em casa num gravador de quatro canais antes de fundar o Supercordas.
Gravou oito CD-Rs caseiros com capas desenhadas à mão e enviados pelo correio antes de estrear em estúdio com Cristalina.
Criou a Transfusão Noise Records no próprio quarto, na Baixada Fluminense; o selo já passou dos cem lançamentos.
Banda de Lê Almeida que começou gravando em fitas cassete velhas; a K Records lança a antologia Maldição em 2026.
Gravou os primeiros discos com sonoridade lo-fi e se afastou dela em Violeta, de 2019.
Estreia produzida por Ana Frango Elétrico, descrita pela crítica como mistura de lo-fi cru e indie delicado.
Compare as ofertas atuais de Arnaldo Baptista, Terno Rei, Sophia Chablau e dos outros nomes desta seção, veja o histórico de preço de cada edição e crie um alerta para ser avisado quando um disco baixar de preço ou voltar ao estoque.
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