Rites of Spring
O único álbum, produzido por Ian MacKaye em 1985, é o disco mais citado como ponto de partida do emo.
Washington, 1985, e todas as ondas depois
O emo nasceu em 1985, quando algumas bandas do hardcore de Washington mantiveram a velocidade e o volume, mas passaram a cantar sobre dúvida, perda e saudade. O rótulo grudou nelas contra a vontade e seguiu a música pelos porões do meio-oeste americano, pelos discos de platina dos anos 2000, pela MTV brasileira e de volta ao underground.
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John Clayton Mayer
Daniel Dale Johnston
Em 1984, a cena hardcore de Washington já tinha um selo próprio, a Dischord Records, e fama de músicas rápidas e disciplinadas. Tinha também uma violência nas rodas e um niilismo que afastavam muita gente que tinha ajudado a construí-la. No verão de 1985, Amy Pickering, que trabalhava na Dischord, espalhou panfletos anunciando um “Revolution Summer”, um verão da revolução. Rites of Spring, Embrace, Gray Matter e Beefeater estavam entre as bandas que responderam: tocaram em shows beneficentes e protestos, deram as costas ao machismo da roda e deixaram as canções irem para outros lugares.[1][2]
O Rites of Spring era o exemplo mais nítido. Guy Picciotto cantava letras pessoais e poéticas com a voz sempre à beira de quebrar, e a banda fez só uns quinze shows, alguns tão intensos que acabavam com o equipamento. Ian MacKaye, ex-Minor Threat, produziu o único álbum do grupo no estúdio Inner Ear em fevereiro de 1985, e a Dischord o lançou em junho. Naquele mesmo verão, MacKaye montou o Embrace com três ex-integrantes do Faith.[1][2][3]
Público e imprensa começaram a falar em “emotional hardcore”, depois em “emocore”, até sobrar só “emo”. Não há consenso sobre quem usou o termo primeiro, e os músicos, em geral, detestaram: MacKaye o chamou de idiota, e Picciotto insistia que o Rites of Spring era uma banda punk. Em 1986, quase todos esses grupos já tinham acabado. Picciotto e o baterista Brendan Canty se juntariam a MacKaye no Fugazi, mas a palavra que eles rejeitavam já tinha saído da cidade em discos, fanzines e no boca a boca.[1][2][3]
No fim dos anos 1980 e começo dos 1990, a ideia viajou por selos pequenos e turnês de van, longe do rádio. Em San Diego, o Heroin e as bandas em torno da Gravity Records, fundada em 1991, puxaram o som para o lado gritado e caótico que depois ganharia o nome de screamo. Em outros lugares, ele ficou mais lento e melódico.[1]
O Sunny Day Real Estate, de Seattle, gravou o disco que definiu essa vertente melódica. Diary, gravado em Chicago com o produtor Brad Wood e lançado pela Sub Pop em 10 de maio de 1994, fica entre o pós-hardcore e o grunge, com a voz aguda e tensa de Jeremy Enigk sobre guitarras que crescem e desabam. Nunca entrou nas paradas, mas vendeu mais de 231 mil cópias e virou um dos títulos mais vendidos da Sub Pop. No mesmo ano, 24 Hour Revenge Therapy, do Jawbreaker, deu ao punk da região de São Francisco um repertório confessional ao qual muita banda emo voltaria.[1][2]
Até uma banda de gravadora grande caiu nessa veia. O Weezer seguiu o sucesso da estreia com Pinkerton, em 1996, um disco mais cru e desconfortável que a crítica massacrou. Ele virou disco de ouro em 2001 e de platina em 2016, e o jornalista Andy Greenwald depois o chamou de álbum emo mais importante da década.[1]
Nos subúrbios de Chicago e nas cidades universitárias em volta, outro galho saiu da mesma raiz pós-hardcore. O Cap’n Jazz, criado pelos irmãos Tim e Mike Kinsella ainda adolescentes, tocava músicas frenéticas que mudavam de forma o tempo todo. O Braid, de Champaign, Illinois, e o Promise Ring, de Milwaukee, concentraram essa energia em refrões, enquanto o Mineral, do Texas, e o Get Up Kids, de Kansas City, a esticaram em crescendos lentos. Os discos saíam por selos independentes como Jade Tree, Polyvinyl e Deep Elm, cuja série de coletâneas The Emo Diaries chegou a onze volumes entre 1997 e 2007.[1][2]
O American Football resumiu esse som em um único álbum. Mike Kinsella formou o trio em Urbana, Illinois, em 1997, com Steve Holmes e Steve Lamos; o LP de estreia saiu pela Polyvinyl em 1999, um ano antes de a banda parar. As guitarras entrelaçadas e cristalinas deram apelido ao estilo, twinkle emo, e em 2023 a banda comprou a casa de Urbana que aparece na capa para evitar que fosse demolida.[1][2]
No fim da década, o mesmo circuito já produzia discos para casas maiores. O Jimmy Eat World, do Arizona, lançou Clarity em 1999 com vendas modestas, e Something to Write Home About, do Get Up Kids, chegou a mais gente pela Vagrant Records no mesmo ano. A Vagrant logo colocaria esse público na estrada.[1]
No verão de 2001, a Vagrant mandou suas bandas cruzarem os Estados Unidos numa turnê patrocinada por Microsoft e Coca-Cola, e a palavra “emo” foi junto para a grande imprensa. No mesmo ano, o Jimmy Eat World lançou Bleed American pela DreamWorks; “The Middle” chegou ao topo da parada alternativa da Billboard e o disco virou platina em 2002. Também em 2002, o Dashboard Confessional se tornou o primeiro artista a gravar um MTV Unplugged sem ter um disco de platina, e o crítico Jim DeRogatis chamou o vocalista Chris Carrabba de “cara do emo”.[1]
De Nova Jersey e Long Island veio uma linha mais pesada. War All the Time, do Thursday, chegou ao 7º lugar da Billboard 200 em 2003; Where You Want to Be, do Taking Back Sunday, ao 3º em 2004; e Deja Entendu (2003) e The Devil and God Are Raging Inside Me (2006), do Brand New, viraram dois dos discos mais citados da época. O My Chemical Romance, também de Nova Jersey, estourou com Three Cheers for Sweet Revenge em 2004 e, em 2006, lançou The Black Parade, um álbum conceitual e teatral que virou platina em menos de um ano.[1]
A Fueled by Ramen montou outro polo em torno de refrões pop: From Under the Cork Tree (2005), do Fall Out Boy, A Fever You Can’t Sweat Out (2005), do Panic! at the Disco, e Riot! (2007), do Paramore, venderam milhões. Páginas no MySpace, palcos da Warped Tour e lojas de shopping transformaram o emo em visual tanto quanto em som, com franja preta, delineador e calça skinny, e muitas dessas bandas, My Chemical Romance e Panic! at the Disco entre elas, recusavam o rótulo. Em 2008, o tabloide britânico Daily Mail publicou uma série de reportagens tratando o emo como seita perigosa, e grupos anti-emo atacaram adolescentes em várias cidades do México.[1][2]
No Brasil, a palavra chegou antes de muita banda se reconhecer nela. A cena de hardcore melódico de São Paulo já tinha o Hateen, formado em 1994 em torno do vocalista Rodrigo Koala, e o CPM 22, de Barueri, que em 2001 ganhou disco de ouro com o álbum homônimo e no ano seguinte levou o prêmio de banda revelação no VMB da MTV com “Tarde de Outubro”. Como faziam músicas melódicas com letras pessoais, essas bandas passaram a ser chamadas de emo dentro da própria cena hardcore, quase sempre como provocação. O CPM 22 nunca aceitou o rótulo: “O CPM é punk rock”, resumiu o baterista Japinha.[1][2][3]
O Dance of Days, liderado por Nenê Altro, foi um dos primeiros grupos nacionais descritos como emo e ganhou nome no underground, mas também ouviu insultos homofóbicos. Por volta de 2003, a tribo emo ocupou as ruas de São Paulo, com franja sobre os olhos, roupas listradas e tênis Vans, e logo se espalhou pelas capitais do Sul e do Sudeste. O Hateen, que cantava em inglês desde o começo, gravou o primeiro disco em português, Procedimentos de Emergência, em 2006.[1][2][3]
A geração seguinte cresceu na internet. A Fresno, formada em Porto Alegre em 1999, ganhou público pela Trama Virtual e pelo MySpace e lançou de forma independente Quarto dos Livros (2003), O Rio, a Cidade, a Árvore (2004) e Ciano (2006). O NX Zero, de São Paulo, estreou com Diálogo? em 2004, por um selo pequeno, e já na Universal lançou em 2006 o disco homônimo que virou platina e trouxe “Razões e Emoções”, até então o maior sucesso da banda.[1][2][3]
Em 2007, as duas dividiram o palco com Hateen, Forfun e Moptop no projeto MTV ao Vivo: 5 Bandas de Rock, e o NX Zero levou Artista do Ano e Hit do Ano no VMB. A Fresno assinou com a Universal para lançar Redenção em 2008, que rendeu disco de ouro, e foi Artista do Ano no VMB de 2009.[1][2][3]
O sucesso trouxe a versão industrial do fenômeno. O Restart, que nasceu no emocore com outro nome e em 2009 trocou o preto pelas calças coloridas e pelo que chamava de “happy rock”, ganhou cinco prêmios no VMB de 2010 e foi vaiado ao receber o de Artista do Ano. O desgaste das chamadas bandas coloridas, somado a um preconceito que muitas vezes era homofobia aberta, ajudou a esvaziar o rótulo no fim da década.[1][2][3]
Na década seguinte, o emo brasileiro voltou maior. Independente desde 2011, a Fresno lançou Sua Alegria Foi Cancelada (2019) e Vou Ter Que Me Virar (2021) e abriu o último dia do Lollapalooza de 2022. O NX Zero, em hiato desde dezembro de 2017, voltou com a formação original em 2023 na turnê Cedo ou Tarde, e até o Restart reuniu a formação original para uma turnê entre 2023 e 2024.[1][2][3][4]
Nos Estados Unidos, enquanto as paradas mudavam de assunto, bandas mais novas foram atrás dos discos dos anos 1990. O Algernon Cadwallader, da Filadélfia, cujo Some Kind of Cadwallader (2008) costuma ser apontado como marco da chamada quarta onda, recuperou as guitarras cristalinas e os vocais gritados do meio-oeste. Floral Green (2012), do Title Fight, e as bandas de selos como a Run for Cover deram forma ao revival, e em 2014 o American Football voltou enquanto a Polyvinyl relançava seu único álbum.[1][2][3]
O The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die levou o estilo a arranjos cheios, quase orquestrais, em Harmlessness (2015), disco que a crítica passou a ver como o fecho do revival, e o Modern Baseball acabou em 2017. A essa altura, o vocabulário do emo já tinha chegado ao hip-hop: Lil Peep cantava sobre depressão em cima de samples de guitarra, e o emo rap virou força comercial no fim dos anos 2010. As guitarras continuaram: I Became Birds, EP de 2021 do Home Is Where, circulou durante a pandemia e levou a linha para os anos 2020.[1][2]
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Formed 1994 São Paulo; Procedimentos de Emergência 2006 first in Portuguese; MTV ao Vivo 5 Bandas de Rock 2007.
Came from emocore (C4), Restart from April 2009, happy rock, VMB 2010 five awards and booed; ended 2015; reunion tour 2023-2024.
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