Uma história jamaicana em movimento

Reggae

O reggae tomou forma entre os sound systems de Kingston, os músicos de estúdio e as mudanças de uma Jamaica recém-independente. Do ska e do rocksteady ao roots, ao dub e ao dancehall, sua história acompanha novas maneiras de criar, dançar e falar sobre a vida na ilha.

  • Sound systems
  • Ska
  • Rocksteady
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  • Dub
  • Dancehall
  • Produção digital

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Kingston antes do reggae

Nas décadas de 1940 e 1950, os sound systems mudaram a vida musical de Kingston. Equipes montavam amplificadores e grandes caixas de som em pátios e salões; os seletores disputavam o público com discos importados, gravações exclusivas e a potência da aparelhagem. O baile era também um lugar de competição, trabalho e descoberta.[1][2]

Rua e estúdio funcionavam em circuito. Produtores observavam a reação da pista, músicos jamaicanos reelaboravam o que ouviam do rhythm and blues e do jazz norte-americanos, e novas gravações voltavam aos bailes para ser testadas diante do público. O mento e tradições afro-jamaicanas também estavam presentes nessa formação. Antes que o reggae tivesse nome, Kingston já havia criado a rede que o tornaria possível.[1][2]

Ska e rocksteady na Jamaica independente

Quando a Jamaica se tornou independente, em 1962, o ska ocupava os bailes, o rádio e os estúdios da ilha. O andamento veloz, os metais em primeiro plano e o contratempo marcado na guitarra e no piano reuniam influências locais e norte-americanas numa linguagem própria. The Skatalites deram forma instrumental a esse momento, com músicos que levavam para a música popular a formação no jazz e anos de trabalho em estúdio.[1][2]

Em meados da década, o entusiasmo da independência já convivia com desemprego, desigualdade e violência urbana. O rocksteady surgiu nesse ambiente com um desenho mais espaçoso: o andamento diminuiu, os metais recuaram e o baixo passou a conduzir as canções. Cantores e grupos vocais ganharam outra proximidade; em Alton Ellis, a mudança podia soar íntima mesmo quando a cidade ao redor endurecia.[1][2]

Essa passagem aconteceu dentro das mesmas redes de músicos, estúdios e sound systems. O ska continuou circulando enquanto o rocksteady abria novas possibilidades de ritmo e gravação. Por volta de 1968, essas experiências começariam a ser reconhecidas por outro nome: reggae.[1][2]

O surgimento do reggae e a força do roots

Por volta de 1968, o rocksteady começou a soar diferente nos estúdios e bailes jamaicanos. Baixo e bateria vieram ainda mais para a frente, enquanto guitarra e órgão marcavam o contratempo com outra firmeza. Foi nesse momento que a palavra reggae começou a circular, com Toots & The Maytals entre os artistas que ajudaram a torná-la conhecida.[1][2]

O roots cresceu dentro dessa nova linguagem ao longo dos anos 1970. O Rastafári já tinha uma história extensa na ilha, e a visita de Haile Selassie I, em 1966, deu maior visibilidade pública ao movimento. Suas referências à África, à libertação e a Babylon — nome dado às estruturas de opressão — encontraram no reggae uma linguagem de grande alcance. Fé e memória histórica apareciam ao lado da fome, da violência, dos conflitos políticos e da sobrevivência cotidiana.[1][2]

Cada artista ocupou esse campo à sua maneira. Burning Spear cantou a memória colonial como uma presença viva; Peter Tosh fez da música um lugar de confronto político. Judy Mowatt levou a experiência e a autoridade espiritual das mulheres negras ao primeiro plano, em sua carreira solo e como integrante das I-Threes. Bob Marley & The Wailers, por sua vez, apresentaram o reggae a um público internacional sem precedentes.[1][2]

O dub transforma o estúdio

Nos estúdios de Kingston, uma música podia continuar mudando depois que os músicos encerravam a sessão. Nas versões preparadas para os sound systems, produtores retiravam vozes, traziam baixo e bateria para a frente e deixavam instrumentos aparecerem apenas por alguns segundos. A mesma gravação ganhava outra vida quando voltava ao baile.[1][2]

King Tubby levou esse trabalho a um novo grau de precisão. Em suas mãos, a mesa de som se tornou parte da performance: canais entravam e saíam, ecos se prolongavam e a reverberação alterava o tamanho imaginário da sala. Lee “Scratch” Perry explorou a mesma liberdade como produtor, criando gravações em que arranjo, ambiente e acidente pareciam trabalhar juntos.[1]

O dub revelou quantas músicas ainda podiam existir dentro de uma gravação pronta. Essa maneira de produzir atravessou fronteiras e ajudou a mudar a relação de outros gêneros com o baixo, a repetição, o espaço e o próprio estúdio.[1]

Do dancehall à produção digital

No fim dos anos 1970, os bailes jamaicanos começaram a pedir outra energia. O dancehall trouxe riddims mais enxutos e colocou os deejays — artistas que falavam e improvisavam sobre as bases — no primeiro plano. As histórias da rua continuavam presentes, agora com outra linguagem, mais direta e moldada pela resposta imediata da pista.[1]

A produção digital acelerou essa transformação durante os anos 1980. Baterias eletrônicas e sintetizadores mudaram a textura da música, enquanto artistas e produtores atravessavam livremente as fronteiras entre roots e dancehall. Black Uhuru, acompanhado por Sly & Robbie, levou temas ligados ao roots para dentro desse novo ambiente e recebeu, em 1985, o primeiro Grammy dedicado ao reggae.[1][2][3]

Nos anos 1990, Garnett Silk e Luciano deram novo impulso ao reggae consciente dentro de uma cena já transformada pelo dancehall. Duas décadas depois, Chronixx e Protoje voltaram ao ska, ao roots e ao dub sem tentar reconstruir os anos 1970. Koffee pertence a uma geração ainda mais aberta, na qual reggae, dancehall, hip-hop e produção digital convivem sem fronteiras rígidas.[1][2][3][4][5][6]

A história chega ao presente pelo mesmo circuito que a colocou em movimento: artistas criam, os estúdios reorganizam e o público decide o que ganha força na pista.[1][2]

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Fontes e leituras complementares

  1. 1
    Reggae music of Jamaica Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO,

    Inscrição de 2018 e funções sociais, espirituais e culturais que o reggae continua exercendo.

  2. 2
    Black History in Roots Reggae Music Jamaica Information Service,

    Base histórica do mento ao roots, incluindo Rastafári, consciência negra, presença feminina e retomadas posteriores.

  3. 3
    Rock Steady Jamaica Information Service,

    Cronologia do rocksteady, contexto social e passagem para um som conduzido pelo baixo.

  4. 4
    Dub Jamaica Information Service,

    Origem do dub e práticas de estúdio ligadas a King Tubby, Lee Perry e seus pares.

  5. 5
    Dancehall Jamaica Information Service,

    Ascensão do dancehall, virada digital e retorno posterior da consciência Rastafári.

  6. 6
    Jamaica's Heritage in Music Jamaica Information Service,

    Sequência da música jamaicana, marco do Grammy de Black Uhuru e conscious reggae nos anos 1990.

  7. 7
    Why 1985 Was a Landmark Year for Reggae Recording Academy,

    Black Uhuru, Sly & Robbie, o primeiro Grammy de reggae e o encontro entre roots e novas tecnologias.

  8. 8
    Luciano steps up to the plate Jamaica Observer,

    O lugar de Luciano na retomada do roots em meados dos anos 1990, após Garnett Silk.

  9. 9
    Chronixx puts Rastafarianism back into Jamaican reggae The Guardian,

    Chronixx e a renovação do roots ligado ao Rastafári no início da década de 2010.

  10. 10
    Protoje: I wanted to capture the history of Jamaican music The Guardian,

    Protoje sobre tratar a história jamaicana como matéria para produção e circulação contemporâneas.

  11. 11
    Strictly roots: the great British reggae revival The Observer / The Guardian,

    A retomada mais ampla do roots e a relevância contemporânea de Chronixx, Protoje e seus pares.

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