Horace Silver
Pianista e autor da maior parte dos temas da primeira formação, incluindo The Preacher e Doodlin'.
Estilo · Jazz
Em meados dos anos 1950, em Nova York, músicos formados no bebop trouxeram o blues e o gospel de volta para o centro do jazz, sem abrir mão da harmonia e da velocidade que tinham aprendido. Essa música ganhou o nome de hard bop, e boa parte dela se aprendeu no palco: pelos Jazz Messengers de Art Blakey e pelo quinteto de Horace Silver passaram Lee Morgan, Wayne Shorter, Freddie Hubbard, Joe Henderson e, décadas depois, Wynton Marsalis. Siga essa linhagem artista por artista e encontre os discos em vinil e CD.
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Na noite de 21 de fevereiro de 1954, Art Blakey subiu ao palco do Birdland, em Nova York, com um quinteto de músicos mais novos do que ele: o trompetista Clifford Brown, o saxofonista Lou Donaldson, o pianista Horace Silver e o baixista Curly Russell. Alfred Lion, da Blue Note, produziu a gravação da noite, feita pelo engenheiro Rudy Van Gelder. Os discos que saíram dali, os volumes de A Night at Birdland, estão entre as primeiras gravações do que viria a ser chamado de hard bop.[1][2]
“Vou ficar com os garotos. Quando esses ficarem velhos demais, arranjo outros mais novos. Isso mantém a mente ativa.”
Blakey cumpriu a promessa por mais de 35 anos. Naquele mesmo ano, ele e Silver passaram a tocar como uma cooperativa e, entre novembro de 1954 e fevereiro de 1955, levaram Kenny Dorham, Hank Mobley e Doug Watkins ao estúdio de Van Gelder, em Hackensack, Nova Jersey. Uma das músicas dessas sessões, The Preacher, quase ficou de fora: Alfred Lion achou o tema de Silver antiquado demais, e os dois ameaçaram cancelar a gravação se ele não entrasse. Silver dizia que a música provava que a banda sabia buscar o clima dos velhos bares de blues, com um toque de backbeat.[1][2]
The Preacher virou o primeiro sucesso de Silver e ajuda a entender o hard bop: a harmonia e a velocidade do bebop continuavam ali, mas o blues, o gospel e o balanço voltavam para a frente. As sessões saíram primeiro em dois discos de dez polegadas e depois foram reunidas no LP Horace Silver and the Jazz Messengers, lançado pela Blue Note em 1956.[1][2][3]
A formação durou pouco. Em 1956, Silver deixou a banda, em parte por causa da heroína que circulava entre os músicos, e montou o próprio quinteto. Blakey ficou com o nome Jazz Messengers. A partir daí o hard bop teve duas escolas, e alguns músicos, como Hank Mobley e Woody Shaw, passaram pelas duas.[1][2][3]
Pouco depois do Birdland, Clifford Brown formou com o baterista Max Roach um quinteto próprio, com Harold Land no sax tenor, Richie Powell no piano e George Morrow no baixo. Em 1955, Sonny Rollins assumiu o lugar de Land. Brown escreveu temas que viraram standards, como Joy Spring, Daahoud e Sandu, e deu algumas aulas a um adolescente de Filadélfia que tinha ganhado o primeiro trompete aos 13 anos: Lee Morgan. Numa noite de chuva, em 26 de junho de 1956, Brown morreu num acidente de carro na Pennsylvania Turnpike, aos 25 anos, junto com Richie Powell e a mulher dele, Nancy, que dirigia.
O saxofonista Benny Golson, também de Filadélfia, estava tocando no Apollo, no Harlem, quando soube da morte de Brown, e escreveu I Remember Clifford em homenagem ao amigo. Em março de 1957, Lee Morgan gravou o tema pela Blue Note em Lee Morgan Vol. 3, disco em que todas as composições e arranjos eram de Golson.[1][2]
Em 1958, Golson entrou nos Jazz Messengers, e Blakey refez a banda seguindo o conselho dele: chamou Lee Morgan para o trompete, Bobby Timmons para o piano e Jymie Merritt para o baixo, todos de Filadélfia. Golson virou o diretor musical e trouxe temas como Along Came Betty, Blues March e Are You Real. Em 30 de outubro de 1958, o grupo entrou no estúdio de Van Gelder para gravar o disco que ficou conhecido como Moanin'.[1][2][3]
A faixa-título mostra como a escola funcionava. Timmons tinha só os oito compassos de abertura, que costumava tocar entre uma música e outra, e completou o tema depois que Golson o incentivou a escrever uma ponte. Moanin', com a melodia em pergunta e resposta, virou o maior sucesso da banda. Golson ficou cerca de um ano: saiu em 1959, depois de uma turnê pela Europa, e montou o Jazztet com o trompetista Art Farmer.[1][2][3]
O lugar de Golson ficou com Wayne Shorter, um saxofonista de Newark que tinha conhecido Lee Morgan num festival de jazz no Canadá. Shorter entrou em 1959, virou o diretor musical e ficou no posto até 1964, escrevendo boa parte do repertório.[1][2][3]
Em 1961, problemas com drogas tiraram Morgan e Timmons da banda. Entraram o trompetista Freddie Hubbard e o pianista Cedar Walton, e o trombonista Curtis Fuller completou uma linha de frente com três sopros. Mosaic, gravado em 2 de outubro de 1961, mostra a escola funcionando: as cinco faixas foram escritas por integrantes do sexteto, duas de Hubbard e uma de cada um entre Shorter, Walton e Fuller.[1][2][3]
Os alunos logo tinham carreiras próprias. No fim de 1963, Lee Morgan gravou The Sidewinder, cuja faixa-título chegou à parada pop em 1964. Naquele ano, Shorter gravou pela Blue Note Night Dreamer, JuJu e Speak No Evil e, em setembro, deixou os Jazz Messengers para entrar no quinteto de Miles Davis.[1][2][3]
Enquanto os Jazz Messengers trocavam de formação, Horace Silver mantinha a outra escola do hard bop. Depois de deixar Blakey em 1956, ele montou um quinteto duradouro e seguiu gravando pela Blue Note como líder por 28 anos. A primeira formação tinha Hank Mobley no sax tenor, Art Farmer no trompete, Doug Watkins no baixo e Louis Hayes na bateria. No fim dos anos 1950 chegaram o trompetista Blue Mitchell e o saxofonista Junior Cook, que ficaram até 1964. Depois deles passaram pela banda Joe Henderson, Woody Shaw e, mais tarde, os irmãos Randy e Michael Brecker. Temas como Señor Blues e Sister Sadie são dessa fase.
No começo de 1964, Silver passou três semanas no Brasil, viagem que, segundo ele, aumentou seu interesse pelas origens da família. Song for My Father, gravada em 26 de outubro daquele ano com Carmell Jones no trompete e Joe Henderson no sax tenor, nasceu em parte dessa viagem. Silver contou que tirou dela o ritmo brasileiro do tema, uma levada de bossa nova com colcheias retas, e que a melodia vinha de antigas canções folclóricas de Cabo Verde, a terra do pai. A foto de John Tavares Silver, nascido na ilha de Maio, está na capa do disco.[1][2][3]
No fim dos anos 1960, a Blue Note foi vendida, o soul-jazz e o fusion ganharam espaço, e o hard bop deixou de ser o estilo dominante do jazz. Blakey continuou contratando jovens: Keith Jarrett e Woody Shaw estão entre os que passaram pela banda depois de Shorter.[1][2]
Em 1980, um trompetista de 18 anos vindo de Nova Orleans, Wynton Marsalis, entrou nos Jazz Messengers durante uma turnê pela Europa e ficou até 1982. O irmão mais velho, o saxofonista Branford Marsalis, tocou na banda entre 1981 e 1982. Depois vieram o trompetista Terence Blanchard e o saxofonista Donald Harrison, que ficaram de 1982 a 1986, o pianista Mulgrew Miller, a partir de 1984, e o saxofonista Kenny Garrett. Branford descreveu o jeito de Blakey ensinar como socrático: ele obrigava os músicos a pensar.[1][2][3]
Blakey morreu em 16 de outubro de 1990, em Nova York, e os Jazz Messengers acabaram com ele, depois de mais de 35 anos. O último disco, One for All, saiu naquele ano. Wynton Marsalis já liderava a própria banda e tinha se tornado o nome mais conhecido da volta do hard bop, que nos anos 1990 passou a ser tratado como a base do jazz acústico moderno.[1][2][3]
Dá para acompanhar essa linhagem disco a disco, na ordem em que as formações se sucederam, da noite no Birdland à viagem de Silver ao Brasil. Os seis saíram pela Blue Note, selo que, ao lado de Prestige e Riverside, concentra a maior parte dos discos de hard bop no catálogo do Garimpa.[1][2][3][4][5][6]
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